Escadas sob(r)e escadas

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Umas escadas para subir umas escadas pode parecer idiota à primeira vista. Não quando falamos de mais exercício de projetar sobre o construído, onde umas escadas existentes de pedras gastas pelo tempo, mas com espelhos demasiado altos e irregulares, exigem uma solução que torne essa diferença de alturas mais cómoda de ultrapassar, sem que para isso se veja afetado o seu valor estético e histórico. A solução passou por criar uma nova escada, visualmente leve, com degraus que flutuem sobre as escadas existentes.

Raul

 

Cobertura estacionamento – Casa da Quebrada

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Projetar sobre o construído não significa necessariamente a recuperação integral de um edificio. Uma casa parece nunca estar acabada. Necessidades inicialmente não previstas ou devidamente mensuradas, acabam por se manifestar mais cedo ou mais tarde. Assim surge uma série de intervenções no espaço exterior de uma habitação que procuram, ora potenciar o uso do espaço exterior, ora criar percursos exterior/interior cobertos. Ainda, definir limites de privacidade. Surge a necessidade de criar um espaço coberto para estacionar dois carros, e abrigar da chuva o percurso carro/casa. A casa da Quebrada da autoria de outro arquiteto, é um conjunto de volumes de pedra e madeira que vai acompanhando o perfil do terreno. Cumpria-me respeitar a paisagem e a arquitetura existentes. Trabalhar a partir matéria existente. A ideia de trabalhar aço e madeira, surgiu de modo quase instantáneo e obvio. Rapidamente se começou a projetar através daí. Depois estudaram-se:

-a secção ideal dos barrotes de pinho nórdico e a sua união á estrutura metálica, cortando o sol direto que se vê transformado num jogo de luz entre as faces iluminadas e as faces em sombra. o cheiro da madeira é intenso.

-a forma como a estrutura apoia nos muros, e a sua união ao coberto de ligação à casa, conseguida através de um perfil HEB pousado no muro mais pequeno e servindo para apoiar a solda dos perfis desenhados à medida que servirão de estrutura para apoio do vidro do percurso coberto.

O resultado final tem diferentes leituras. Numa visão mais distante, é linear e leve, numa aproximação, expressivo, texturado, e  adensado pelo cheiro da madeira.

Raul

 

Recuperação de Casa em Abragão

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Uma casa modesta como tantas, onde algures se há-de encontrar uma lareira onde se cozinhava e se passava o tempo junto ao fogo.Assim o acusavam as paredes queimadas e pré-existencias: forno e pedra da lareira. Três espaços pequenos, um teto falso demasiado baixo para a altura das novas gentes. Janelas pequenas, que se revelariam suficientes ao imaginar um espaço de maior continuidade. A escala do existente e o programa apontavam, para um espaço aberto, quase um loft. Para passar uns fins dias tranquilos por Abragão. São essencialmente cinco layers que definem o ambiente que se pretendia:

1-Pé-direito total, assumindo interiormente a forma da cobertura de duas águas, pintado a uma cor escura (verde fumo), para que o pé-direito psicologicamente assuma duas alturas diferentes (total á luz do dia, reduzido à noite)

2- Paredes de pedra pintadas de branco, tal como outrora já haviam sido caiadas. O objetivo é maximizar a luz natural e artificial, prender o pó que o granito liberta, tornar o ambiente anterior mais doméstico.

3- Pavimento continuo  texturado e informal, que vá de encontro ao fluxo interior exterior que se adivinha numa casa de campo. Cimento afagado queimado em tom vermelho oxido. Técnica muito presente em cozinhas antigas.

4- Portadas pelo exterior para quebrar a entrada direta de sol na habitação, funcionando como um filtro de luz que é recebido pelas paredes brancas, criando uma atmosfera quente, vermelho-rosada no interior.

5- Parede divisória quarto/sala com tabique à vista na parte superior (timpano). Ao amanhecer riscos de luz invadem o teto do quarto, acusando naturalmente o nascer do dia. A cor escura definida para o teto, impede a difusão da luz, fazendo com que a luz que entre se defina como raios de luz cercados de escuridão, apenas presentes no teto. A escuridão necessária para manter o sono, mantém-se.

Na casa composta por dois pisos: piso superior habitação, piso inferior (cortes gado), pretendia-se inicialmente a recuperação de apenas um piso. Finalizado, partiu-se de imediato para o piso de baixo, que assume uma lógica distinta, e um ambiente diferente. São outros os layers que o definem.

O pé direito no limite do habitável, pedia a reflexão da luz para o aumentar (branco), as paredes teriam que contribuir (branco magnólia). A cozinha aberta para o espaço tal como no piso de cima, acrescenta a textura da madeira de castanho novo ao interior. O piso de baixo transforma-se num apartamento independente do superior. A casa de dois pisos desdobra-se num edificio de dois apartamentos. O espaço habitavel existente por baixo da eira, é imaginado como possivel terceiro quarto independente, é simplesmente um espaço habitavel, com uma casa de banho de serviço. Os arranjos exteriores começam a ganhar a sua forma, sublinhando a casa. Gosto de imaginar que o vermelho das portadas e da caixa de entrada é como o batom vermelho que uma velhinha põe nos lábios, orgulhosa da sua idade. A casa continua a ser velhinha, e é assim que ser ser vista. Maquilhada para receber a luz do dia, continua a ser quem era.

Raul

Serralharia Monteiros – Reformulação Bloco Administrativo

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Era preciso dotar o bloco administrativo da Serralharia Monteiros, com braços que recebessem de outra forma. Filtrar o sol que entrava abusivamente pela fachada em vidro totalmente exposta ao sol.Aproveitar a oportunidade para apresentar ao público uma nova cara. Representar claramente a capacidade produtiva da Monteiros, bem como a sua atitude dinâmica e optimista. Ilustrar a capacidade técnica e criativa de uma Serralharia que tem sabido acompanhar os tempos, e que caminha de olhos apontados ao futuro.

Reorganizar os fluxos: cliente, funcionário, gerencia…Criar melhores condições para receber e reunir. Intervir rapida e eficazmente, pois a lógica produtiva da Monteiros não permite paragens.

Novos problemas e necessidades vão surgindo à medida que a obra avança. As soluções vão surgindo, e a nova organização assume a sua forma final. Tudo é discutido. Pormenores e “pormaiores”, porque tudo vai contribuir para uma nova forma de estar na empresa. O público passa a ser recebido através de um espaço exterior que permite que uma última questão seja discutida ao abrigo da chuva, antes que cliente e “Monteiro” se despeçam uma última vez. À noite o edifício transforma-se numa luminária que prende o olhar de quem passa. A fachada publicita o conteúdo, não sendo um “duck” nem necessitando de um “decorated shed” para mostrar quem é.

Nota: Duck e decorated shed referem-se ao esquema ilustrado pelo arquiteto pós-moderno R. Venturi na sua dissertação Learning from Las Vegas, para demonstrar as duas categorias de iconografia em que um edificio se pode inserir.

Raul

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Pérgola com módulos móveis

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Todos os dias são diferentes. Todos os dias têm uma luz diferente. Pensar uma pérgola como um filtro de luz. Como uma nuvem que pode ser mais densa ou mais fina. O Siza diz que fazer arquitetura é geometrizar. Acho que concordo. Penso que estou a geometrizar a sombra. Que as sombras estão sempre a mudar a cada micro segundo. Como tudo, de resto. As pérgolas existem para fazer sombra. São um abrigo do sol. Tão simplesmente isso, e isso já é tanto. Tornar um espaço mais habitável, porque a sombra no Verão é a forma de poder almoçar cá fora. No Inverno a pérgola pode ficar caduca como uma árvore. No Verão adensa-se e desenha sombras geométricas.

Venha o sol.

Raul

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